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Juros sobre juros: como uma dívida pequena vira uma dívida grande

Num exemplo mês a mês, veja como juros sobre juros fazem uma dívida de R$ 500 passar de R$ 1.500 em um ano, por que pagar pouco não basta e como frear a dívida.

Por Redação Cada RealAtualizado em · 6 min de leitura · Nível iniciante

Com juros hipotéticos de 10% ao mês, uma dívida de R$ 500 passa de R$ 1.500 em um ano, sem você comprar mais nada. Isso acontece porque os juros de cada mês entram no saldo e, no mês seguinte, também passam a cobrar juros. É o tal juros sobre juros, e entender a conta é o primeiro passo para parar a bola de neve.

Juros simples e juros compostos

Nos juros simples, a taxa é sempre aplicada sobre o valor original. Nos juros compostos, ela é aplicada sobre o saldo do momento, que já inclui os juros anteriores.

O glossário de cidadania financeira do Banco Central explica que, nos juros compostos, os juros de um período se acumulam no saldo devedor para o cálculo do período seguinte, e que a imensa maioria dos empréstimos e financiamentos funciona assim. Por isso, quando o assunto é dívida, pense sempre em juros compostos.

A conta passo a passo

Imagine uma dívida de R$ 500 com juros de 10% ao mês. A taxa é hipotética e redonda, só para facilitar a conta, e não paga nada nesse período.

  • Mês 1: R$ 500 x 10% = R$ 50 de juros. Saldo: R$ 550.
  • Mês 2: R$ 550 x 10% = R$ 55 de juros. Saldo: R$ 605.
  • Mês 3: R$ 605 x 10% = R$ 60,50 de juros. Saldo: R$ 665,50.

Repare: os juros não ficam em R$ 50. Eles crescem todo mês, porque a base cresce. Seguindo a mesma conta:

Mês Saldo com juros compostos Saldo se fossem juros simples
0 R$ 500,00 R$ 500,00
3 R$ 665,50 R$ 650,00
6 R$ 885,79 R$ 800,00
9 R$ 1.178,99 R$ 950,00
12 R$ 1.569,24 R$ 1.100,00

Nos juros simples, seriam R$ 50 por mês, sempre: R$ 500 + (12 x R$ 50) = R$ 1.100. Nos compostos, a dívida chega a R$ 1.569,24, mais que o triplo do valor inicial. Os R$ 469,24 de diferença são os juros cobrados sobre juros.

Para testar com outros valores e taxas, use a nossa calculadora de juros compostos.

Por que pagar um pouco não resolve

Agora imagine a mesma dívida de R$ 500, a 10% ao mês, e que você consegue pagar R$ 40 por mês.

  • Mês 1: R$ 500 + R$ 50 de juros = R$ 550. Paga R$ 40. Saldo: R$ 510.
  • Mês 2: R$ 510 + R$ 51 de juros = R$ 561. Paga R$ 40. Saldo: R$ 521.

O pagamento de R$ 40 é menor que os juros do mês, então o saldo sobe. Depois de 12 meses assim, você terá pago R$ 480 e ainda vai dever cerca de R$ 713,86, mais do que no começo.

A regra para guardar: se a parcela não cobre os juros do mês, a dívida cresce.

Agora o outro lado. Com R$ 100 por mês, nas mesmas condições hipotéticas, a dívida acaba no 8º mês e o total pago fica em cerca de R$ 728. Ainda é bem mais que os R$ 500, mas a bola de neve para. Para quem ganha R$ 1.800 líquidos (renda hipotética; o salário mínimo muda todo ano e é definido pelo governo federal), a diferença entre R$ 40 e R$ 100 por mês pesa. Por isso vale cortar em outro lugar por alguns meses.

Onde os juros sobre juros mais aparecem

  • Rotativo do cartão: é o que acontece com a parte da fatura que você não paga. Se é o seu caso agora, veja o que fazer quando não dá para pagar a fatura.
  • Cheque especial: o limite que aparece junto do saldo e é usado sem você perceber.
  • Empréstimos e crediário: a parcela fixa esconde juros compostos dentro dela.
  • Conta atrasada: além dos juros, costuma haver multa e encargos de atraso previstos no contrato.

O Banco Central, na área de Cidadania Financeira, aponta que os créditos mais caros costumam ser os mais fáceis de conseguir, e recomenda fugir do cheque especial e pagar o cartão em dia para não cair no rotativo.

Um freio que a lei já colocou

Para o cartão de crédito existe um teto. A Lei 14.690, de 2023, definiu que, desde 3 de janeiro de 2024, os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem passar de 100% do valor original que ficou sem pagar ou foi parcelado. O exemplo do Banco Central: se você deixou de pagar R$ 100, os juros e custos não podem passar de R$ 100.

O teto ajuda, mas não salva: na prática, a dívida pode chegar ao dobro. E ele vale para o rotativo e o parcelamento da fatura, não para todos os tipos de crédito.

Como descobrir a taxa que você está pagando

Muita gente sabe o valor da parcela, mas não a taxa. A Calculadora do Cidadão, do Banco Central, resolve isso na opção "Financiamento com prestações fixas": você informa três dados e ela calcula o quarto, usando juros compostos.

Em um exemplo simples: um produto de R$ 1.000 à vista oferecido em 10 parcelas de R$ 120, sem entrada. O total vai a R$ 1.200 e, pela conta de juros compostos que a calculadora usa (primeira parcela um mês depois da compra), a taxa embutida fica em cerca de 3,46% ao mês. Para decidir entre as duas formas, use também a nossa calculadora parcelar ou à vista.

O próprio Banco Central avisa que a calculadora não confere se o cálculo do banco está certo, porque pode haver seguros e outros custos fora da simulação. Por isso, ao comparar ofertas, peça o CET, o Custo Efetivo Total, que reúne juros, tarifas, impostos e outras despesas.

Próximos passos

  • Faça hoje a lista de todas as dívidas com quanto falta, quantas parcelas faltam, o valor da parcela e a taxa, como sugere o Banco Central.
  • Descubra a taxa de cada uma na Calculadora do Cidadão e marque a mais cara.
  • Confira se o que você paga por mês cobre pelo menos os juros do mês; se não cobre, essa dívida é a prioridade.
  • Procure o banco para negociar taxa menor ou prazo diferente, ou trocar a dívida cara por uma mais barata.
  • Monte um plano com o guia como sair das dívidas ganhando um salário mínimo e, se as dívidas já passaram da renda, leia sobre superendividamento.

Perguntas frequentes

O que é juros sobre juros?
É o regime de juros compostos. Os juros de um mês são somados ao saldo e, no mês seguinte, a taxa é aplicada sobre esse total maior. Segundo o Banco Central, a imensa maioria dos empréstimos e financiamentos é calculada assim.
Por que pago todo mês e a dívida não diminui?
Porque o valor pago é menor que os juros do mês. Se a dívida gera R$ 50 de juros e você paga R$ 40, os R$ 10 que faltam entram no saldo e também passam a render juros. A dívida cresce mesmo com você pagando.
Existe limite para os juros do rotativo do cartão?
Sim. Pela Lei 14.690, de 2023, desde 3 de janeiro de 2024 os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem passar de 100% do valor original que ficou sem pagar ou foi parcelado. O Banco Central dá o exemplo: em uma dívida de R$ 100, esses juros e custos não podem passar de R$ 100.
Como descubro a taxa de juros que estou pagando?
Use a Calculadora do Cidadão, do Banco Central, na opção 'Financiamento com prestações fixas': informe o valor emprestado, o número de parcelas e o valor da parcela, e ela calcula a taxa mensal. Para comparar ofertas, peça sempre o CET, o Custo Efetivo Total.

Fontes e referências

Aviso. Este guia ensina, não aconselha o seu caso: se a decisão for grande, converse com um profissional. Regras, taxas e limites mudam; antes de agir, confira o valor de hoje no órgão oficial citado no fim da página. O Cada Real não indica produto, não oferece empréstimo e não ganha nada para citar instituição. Leia o aviso legal.
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Indicadores de hoje

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Dados do Banco Central do Brasil (séries SGS), buscados ao abrir a página.

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